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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Álbum de Recordações #5

Vistas as coisas, Cláudio não gostava do pai.

Vá-se lá saber porquê. Era mesmo daquelas coisas que não fazem sentido, como um pequeno formigueiro que se sente no corpo todo, do qual não sabemos a origem mas que no entanto não podemos negar.

O pai nunca o tratara mal, dentro dos possíveis sempre lhe dera o que queria, mas mesmo assim Cláudio não gostava do pai. Um homem que era comissário da Polícia, condecorado desde que salvara aqueles gémeos de se afogarem no lago. Um autêntico bom samaritano que contribuía para causas justas e nobres, sempre que podia ajudava os mais desfavorecidos e mesmo assim Cláudio não conseguia gostar do pai.

Seria de si próprio o problema?

A culpa não podia ser dele. Tal sensação, como aqueles apitos muitos agudos e perturbadores que apenas ouvimos no limiar da audição, só acontecia com o seu pai. Com a sua mãe a relação era perfeitamente normal, e embora poucas vezes estivesse com o resto da família, com eles também não acontecia.

Até se lembrava bem daquela vez há uns anos, embora fosse ainda pequeno, quando a sua tia
Raquel os visitou com o seu filho Jorge. Tudo correra lindamente nesse dia, dera-se muito bem com o seu primo e a sua tia era um perfeito amor. Pessoas perfeitamente normais. Mas o que mais lhe ficou marcado na memória foi o medo que sentiu do pai nesse dia, embora este tenha passado o dia a fazer piadas enquanto todos riam . Todos menos ele, obviamente. Até acabaram por tirar uma foto de família.

Cláudio nunca mais quis tirar uma foto depois desse dia.

Decididamente, Cláudio não gostava do pai.



terça-feira, 17 de novembro de 2009



Millenium 1 – Os Homens que odeiam as Mulheres é a adaptação para cinema do primeiro livro da trilogia Millenium, escrito por Stieg Larsson. Realizado por Niels Arden Oplev, este thriller foge à normalidade do cinema no nosso país por ser uma produção inteiramente sueca, coisa que por cá se vê muito pouco. Por isso é bom que os caros leitores do Ninho tenham de facto comparecido às aulas de sueco que patrocinamos em Agosto.

Os Homens que odeiam as Mulheres conta-nos a história de Mikael Blomkvist, jornalista da revista Millenium que se encontra num momento difícil da sua vida após ter sido condenado por difamação. Enquanto pondera a sua vida e os meses na prisão que vai ter que cumprir, é subitamente abordado com uma proposta de emprego da parte de Henrik Vanger, antigo líder do poderoso grupo económico Vanger. Esta proposta de simples tem muito pouco: Vanger quer que Blomqvist tente descobrir o que aconteceu na realidade à sua sobrinha Harriet que desapareceu à 40 anos atrás em circunstâncias suspeitas. No meio disto, Blomkvist vai ter ajuda de onde menos espera na forma de Lisbeth Salander, uma hacker de estilo punk com um histórico de problemas na juventude.

Um thriller sem dúvida para uma audiência mais adulta, este Os Homens que odeiam as Mulheres traz-nos uma história intrigante e ao mesmo tempo cativante, com ligações no mínimo inesperadas. De pista em pista caminhamos com Blomqvist e Salander para a resolução do mistério, com inevitáveis twists pelo meio. De notar a existência de cenas mais marcantes e pesadas, as quais de qualquer modo eu garanto que foram atenuadas em relação ao livro. No entanto, é óbvio que mesmo com uma boa história sem bons actores não se vai longe. Tal coisa não acontece aqui pois o elenco é bastante bom, sem falhas a apontar. Todos cumprem o que é esperado das suas personagens, e mais, conseguem torná-las credíveis. Mesmo assim é de destacar a participação de Michael Nyqvist no papel de Mikael Blomkvist, mas principalmente de Noomi Rapace no papel de Lisbeth Salander, com uma representação no mínimo memorável.

Para quem se indaga se “o livro é melhor que o filme” tenho a dizer que sim, na realidade é, mas isso não quer dizer que este filme seja mau. Muito pelo contrário, tem valor por si próprio, e embora tenha uns pequenos, mínimos, desvios em relação à narrativa original, temos aqui uma adaptação bastante fiel. Talvez um dos poucos defeitos seja a sua duração, mas são 152 minutos a questionarmo-nos “que raio aconteceu a Harriet??”.

Sem dúvidas, uns sólidos 7 em 10 taralhões gostaram bastante do filme.*



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* - Por outro lado, 10 em 10 taralhões dedicavam as suas vidas a Lisbeth.