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sexta-feira, 2 de abril de 2010

Álbum de recordações #6

Amália adorava os dias mágicos da Páscoa. A escola fechava e todas as crianças tinham direito a uns dias para brincadeira e paródia. Melhor, os papás também ficavam por casa, folgando do trabalho, e a mesa da sala enchia-se de amêndoas de chocolate e doçaria. Na aldeia o senhor padre vinha benzer a casa e no final o papá entregava fielmente um envelope com "uma prendinha para os santos, filhota". As ruas da aldeia eram decoradas com imensas flores e toda a gente distribuia beijnhos e abraços e cantava-se muito. Eram tempos de alegria.
Naquele domingo de Páscoa, Amália fora com a mamã ao estúdio do fotógrafo da aldeia, o senhor Bento. Todos os anos se repetia o ritual. Amália tirava a fotografia com o senhor coelho da Páscoa e no final ainda ganhava um docinho.


De acordo com o relatório das autoridades não se chegaram a grandes conclusões. A mãe e a criança chegaram ao estúdio às dez horas da manhã. A menina entrou para a sala de fotografia com o senhor Bento e sentou-se cá fora à espera que o retrato ficasse concluído. Seguiu-se um flash súbito e intenso que extravasou para a sala de espera e ouviu-se um grito excruciante. Quando a mãe entrou na sala o cenário estava intacto, à excepção do senhor Bento que se encontrava caído morto no chão, olhos preenchidos por uma espécie de névoa branca e sangue derramado dos ouvidos. A pequena Amália desaparecera... Em cima do cadeirão branco estava a foto...







sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Álbum de Recordações #5

Vistas as coisas, Cláudio não gostava do pai.

Vá-se lá saber porquê. Era mesmo daquelas coisas que não fazem sentido, como um pequeno formigueiro que se sente no corpo todo, do qual não sabemos a origem mas que no entanto não podemos negar.

O pai nunca o tratara mal, dentro dos possíveis sempre lhe dera o que queria, mas mesmo assim Cláudio não gostava do pai. Um homem que era comissário da Polícia, condecorado desde que salvara aqueles gémeos de se afogarem no lago. Um autêntico bom samaritano que contribuía para causas justas e nobres, sempre que podia ajudava os mais desfavorecidos e mesmo assim Cláudio não conseguia gostar do pai.

Seria de si próprio o problema?

A culpa não podia ser dele. Tal sensação, como aqueles apitos muitos agudos e perturbadores que apenas ouvimos no limiar da audição, só acontecia com o seu pai. Com a sua mãe a relação era perfeitamente normal, e embora poucas vezes estivesse com o resto da família, com eles também não acontecia.

Até se lembrava bem daquela vez há uns anos, embora fosse ainda pequeno, quando a sua tia
Raquel os visitou com o seu filho Jorge. Tudo correra lindamente nesse dia, dera-se muito bem com o seu primo e a sua tia era um perfeito amor. Pessoas perfeitamente normais. Mas o que mais lhe ficou marcado na memória foi o medo que sentiu do pai nesse dia, embora este tenha passado o dia a fazer piadas enquanto todos riam . Todos menos ele, obviamente. Até acabaram por tirar uma foto de família.

Cláudio nunca mais quis tirar uma foto depois desse dia.

Decididamente, Cláudio não gostava do pai.



sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Albúm de Recordações #3

"O que têm uma gaiola e cebolas a ver uma com as outras?", indagava Jorge enquanto esperava que a foto fosse tirada.

"Talvez pudesse pôr as cebolas dentro da gaiola, mas isso não alegrava mais o meu dia e nem afugentava o potente aroma... E não é que estão a demorar uma eternidade para tirar a foto?"
Jorge, aproveitando uma folga à muito esperada do seu trabalho como trolha, tinha ido naquele dia ao fotógrafo com os seus dois filhos para tirar uma foto "só dos rapazes", enquanto a sua mulher fazia o jantar.
Jorge tinha um bom casamento e era feliz. A sua mulher era doce e trabalhadora, bonita e selvagem quando queria. Jorge adorava-a mais que tudo.
Tinham dois filhos ainda pequenos, dos quais Jorge esperava um grande futuro. Embora fossem ainda muito jovens, Jorge notava neles um olhar esperto e atento, e via-os já como grandes políticos ou cientistas. Os seus filhos viam apenas a hora do próximo biberão.

"Se calhar podia construir uma espécie de eixos e meter as cebolas lá a fazer de rodas, e depois metia a gaiola em cima e ela andava... Epá não, isto é palerma... Então mas a foto não sai, caramba?!"
Jorge era míope, e decidira não usar os seus óculos na foto naquela ocasião, pelo que tinha a visão muito limitada. Via bem os seus filhos no seu colo, mas pouco mais.
O que quer dizer que nunca chegou a ver o fotógrafo a matar todo o staff da loja selvaticamente, e consequentemente, Jorge também não se apercebeu quando o fotógrafo, agora coberto no sangue dos seus colaboradores, colapsou por estar a esgravatar os seus próprios olhos.
Por isso, Jorge continuava feliz e despreocupado com os seus dois filhos junto a ele, os quais permaneciam impassíveis - na realidade eram autistas.

* CLIC *

"Ah, por fim tirou a foto, homem!", exclamou Jorge.

Nunca se soube quem acabou por tirar a foto, mas sabemos que a mulher de Jorge tinha cataratas e que Jorge nunca tinha visto o seu próprio reflexo.



quinta-feira, 17 de abril de 2008

Álbum de recordações

Malaquias e o pessoal do 3º regimento de infantaria em momento de descontracção.



Malaquias era um rapaz tímido. Filho único, seu pai tinha o vício da embriaguez e sua mãe pecava pelas fragilidades no domínio da inteligência. Viviam no bosque - foi o único lar que conheceu - e desde cedo Malaquias contactou com a natureza. Viria a tornar-se uma das suas maiores paixões. Isso e devorar homenzinhos durante a época de caça. Não eram uma família muito abastada, mas o bosque proporcionava-lhes tudo o que necessitavam. Quando o pai chegava bêbedo a casa e gritava com a mãe, Malaquias fugia para o meio das árvores, corria sem parar, até chegar à beira do riacho onde todas as manhãs tomava banho. Sempre foi muito asseado. Sentava-se a atirar pedrinhas à água e esperava que tudo passasse. Os peixes eram os seus confidentes. E o almoço também. Às vezes, Malaquias acordava durante a noite com pesadelos. Ia até ao quarto dos pais procurar conforto. Um dia abriu a porta e viu o pai e a mãe brincarem a um jogo estranho, sem roupa, ele montado nela, mordaça na boca. Pareciam estar a sofrer, pelo barulho da coisa, mas Malaquias não quis interromper. Gostava de bolachas Oreo e de mergulhá-las no leite. Ou no sangue ainda quente das famílias que obliterava, quando as apanhava a fazerem piqueniques. Era uma criança feliz.

Quando atingiu a maioridade Malaquias chateou-se com o pai e saiu de casa. Fora apanhado a masturbar-se com fotos do Winnie the Pooh e ele bateu-lhe. Partiu sem dizer adeus. O Governo descobriu-o a viver na floresta e foi chamado à tropa. Malaquias não gostava de exercício físico. Tentou escapar, argumentou que via mal ao longe. Não resultou.

Malaquias fez a recruta, a custo. Ao fim da primeira semana devorou um colega. Chamara-lhe "Gordzilla", numa clara alusão aos seus quilinhos extra. Foi castigado com uma semana de cozinha, a descascar batatas. Comeu metade. Quando a guerra rebentou foi destacado para o 3º regimento de infantaria. Combateu na frente e foi nomeado curandeiro. Decorridas algumas semanas o seu pelotão tinha sido dizimado. Não foram encontrados cadáveres. Malaquias engordou. Fruto do seu estranho desaparecimento foi declarado "desaparecido em combate", e nunca mais ninguém lhe pôs a vista em cima. Malaquias era um rapaz tímido. Malaquias só procurava compreender o seu papel no mundo. Nunca encontrou as respostas que procurava.